Trajetória

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2015

2018

2020

2028

2030

RESUMO DO CENÁRIO

Neste cenário, a democracia se vê apropriada em boa parte da América Latina pela influência depredadora do comércio ilícito que prevalece sobre a ação do governo ou convive com ela. Os cidadãos oscilam entre o cinismo e em alguns casos a desesperança, em que o território é governado de fato pelo crime organizado que impõe força e mostra certa força de prosperidade temporal, e em outros casos o terror, em que o território se encontra em disputa. O sistema de tomada de decisões políticas se torna funcional a uma série de interesses opacos que disfarçam suas verdadeiras intenções detrás de imaginários e demandas cidadãs legítimas. A corrupção se consolida como o modus vivendi de políticos, empresários e criminosos de forma igual, que vivem e prosperam à sombra do Estado. As atividades ilícitas reconfiguram não só o monopólio do poder estatal como também a atividade empresarial legítima e as pautas de convivência em cidades e bairros. Três lustros de violência consolidam territórios fora do controle dos Estados nacionais e, ainda mais grave, alguns Estados falidos que a comunidade regional e internacional apenas trata de conter. O destino comum das democracias da região está em suspenso. É o cenário da violência, do medo, da sensação de derrota e do sequestro da democracia.

CARACTERÍSTICAS

Estrutura de poder

Cenário do predomínio do poder do crime organizado e da violência.

Instituições democráticas e cultura política

Debilitam-se as instituições e se consolidam esquemas de governabilidade que enfraquecem o ideal democrático em muitos territórios da região devido à maior sofisticação do crime organizado que penetra no Estado, ao recrudescimento da violência, ao avanço da corrupção, ao predomínio da impunidade e ao apego a soluções autoritárias.

Participação cidadã

Instalam-se na sociedade o silêncio, o temor, a autocensura e a dupla moral, e se experimenta uma degradação notável dos valores cívicos em territórios e províncias da região.

Desenvolvimento econômico e inclusão social

Acentuação da pobreza, da desigualdade e do desequilíbrio ambiental dada a ausência de garantias para o crescimento inclusivo e a inoperância dos mecanismos redistributivos do Estado.

Integração regional

O dinamismo dos mecanismos informais e ilegais da integração regional supera enormemente os lentos avanços na assinatura de acordos regionais e soluções compartilhadas.

Desde 2015, registra-se um afastamento ainda maior entre os partidos políticos e os cidadãos. As finalidades ideológicas e programáticas dos primeiros se convertem cada vez mais em instrumentos funcionais da corrupção e do crime. São agora maquinarias eleitorais, oportunistas e clientelistas financiadas pelo crime organizado e pelos poderes fáticos de empresários que devem suas fortunas à permanente conivência com as debilidades do Estado. Como os partidos vão conseguindo maiores entradas e maior capacidade convocatória, sufocam com frequência as iniciativas de cidadãos bem intencionados, mas sem os meios suficientes para que sua mensagem chegue à população. Os paradigmas antigos da política tradicional se consolidam como a regra comum e se popularizam assim premissas como “um político pobre é um pobre político”. Uma vez chegados ao poder, os representantes devem prestar contas e ser funcionais aos interesses privados dos que os financiaram e os elevaram.

Em todo caso, desde 2015 se torna evidente em vários casos que o crescente vazio estatal não significa o desaparecimento da burocracia: o que vai ficando é uma estrutura administrativa rudimentar, com estreitas margens de ação política, com capacidade de execução muito limitada e sem mecanismos nem incentivos para sua profunda renovação. Enquanto isso, os grupos especialmente vulneráveis continuam à deriva, sem uma atenção focada do Estado para prevenir sua inserção no mundo da ilegalidade. E, sobretudo, não existe em muitos países da região a suficiente vontade política para aprender dos erros do passado, traçar uma visão coletiva que depure a administração pública e afrontar a luta contra o crime com uma combinação de pragmatismo, responsabilidades comuns, transparência e prevalência dos direitos e garantias fundamentais próprias de um Estado democrático.

A desunião e a ausência de visão e de vontade política se tornam visíveis, por exemplo, na Sessão Especial da Assembleia Geral das Nações Unidas dedicada ao tema de drogas de 2016 (UNGASS, por suas siglas em inglês), ocasião que muitos consideram propícia para chegar a uma posição em bloco que permita impulsionar eficazmente certas reformas às políticas de drogas que tanto impacto têm na estabilidade da região. Entretanto, dos governos latino-americanos prima em alguns casos a passividade; em outros, a conveniência; em outros, ainda, o fundamentalismo moral e, em todos, a ausência de audácia. Em muitos deles se propaga a apreensão a impulsionar opções diferentes por temor a sanções econômicas internacionais ou, simplesmente, cedem à consuetudinária oposição da opinião pública latino-americana às reformas das políticas de drogas e à regulamentação da maconha. Isso impede chegar ao acordo com consensos mínimos regionais em matéria de enfoques alternativos para enfrentar um problema que por definição é transfronteiriço e que por isso requer soluções que transcendam a figura dos estados-nação. Pouco se consegue ao final da sessão, apesar de que em outras latitudes se assinam consensos majoritários a respeito, referendados democraticamente, particularmente no que concerne às políticas de redução da pena e à necessidade de assumir o consumo como um problema de saúde e não penal.

O paradigma legal e institucional de luta contra as drogas que se dirige ao combate militar contra a oferta e que impera há vários anos na região continua assim vigente, com raras exceções, o que explica, segundo muitos estudos, o recrudescimento da violência e a expansão dos vínculos entre os narcotraficantes e a mudança política, econômica e social de um grupo crescente de países na região. De fato, muitos analistas coincidem em que ao finalizar a segunda década do século XXI não há um só país na América Latina alheio ao raio de ação do tráfico global de drogas. Enquanto isso, o consumo de drogas ilícitas no mundo continua constante.

O dilema não se limita apenas ao narcotráfico. Como acontece com tanta frequência na história, as ameaças não terminam, mas se transformam, agora com o respaldo de novas tecnologias. As fortalecidas redes de traficantes percebem que a debilidade relativa ou ausência absoluta das instituições democráticas e o poder corruptor do dinheiro oferecem incentivos para ir mais além do rentável mercado de narcóticos. No mundo há toda uma série de atividades delitivas cujas utilidades são tão grandes que fazem que a ação do governo sucumba sempre ante a lógica dos mercados ilegais. A década de 2020 na América Latina se caracteriza assim, entre outros fatores, pela expansão do comércio ilícito de armas de toda classe, de objetos falsificados, produtos piratas e ideias roubadas, de metais preciosos, de órgãos humanos e de pessoas não registradas e/ou escravizadas. Em conformidade com as novas tendências mundiais, a ciberdelinquência, relacionada com crimes digitais, como o furto, a extorsão e a espionagem se arraiga mais na região. Redobram-se os ciberataques a entidades públicas e a empresas e se divulga uma nova espécie de delinquente com poder de desestabilização: o “ciberchefe”, que opera no cume de um cartel digital com crescente força na clandestinidade. Os recursos naturais são objeto de uma exploração descontrolada, com o correspondente prejuízo no abastecimento da água. A poderosa lógica amoral do mercado ilícito se estende com a velocidade do fogo, sem que os governos saibam como extinguir o incêndio. Em alguns casos, inclusive, não há um interesse real de extingui-lo devido à pressão e influência política dos traficantes.

O número de homicídios e desaparecimentos atribuídos ao tráfico ilícito entre 2020 e 2030 alcança cifras epidêmicas sem precedentes inclusive no perturbador contexto latino-americano do começo do século. Os fenômenos de violência criminal que eram comuns em partes do México, Colômbia e nos países do Triângulo do Norte se estendem e são agora diários em uma alarmante porcentagem territorial da região, apesar de sua complexidade demográfica e geográfica. A região se posiciona de novo e reiteradamente como a região mais violenta e mortífera do mundo.

De fato, o crime organizado é um poder em um número cada vez maior de localidades e territórios, onde os serviços públicos se destacam por sua ausência. Milhões de latino-americanos devem se submeter ante as condições dos criminosos, que impõem suas próprias regras em matéria de justiça, fiscalização e segurança. Ou se submetem ou tentam se mudar. Os impostos legais são substituídos por extorsões. Os mecanismos de solução de conflitos e controvérsias se baseiam agora mais na força que no direito. Novas infraestruturas esportivas financiadas com dinheiro ilícito são construídas. Em suma, o crime organizado supre a seu próprio arbítrio as carências da ausência do Estado. Os criminosos buscam legitimar sua presença na sociedade e em muitos casos conseguem. Em numerosos exemplos se expressa escancaradamente o problema da criminalidade, mas também há outros nos que as atividades normais funcionam devidamente, mesmo sem o amparo estatal, como o turismo, o comércio e os carnavais. Dessa maneira, é produzido o paradoxo do crime organizado como gerador de paz e estabilidade, que inclusive provê bens públicos e evita espirais significativas de violência.

Contudo, desde 2025, multiplica-se exponencialmente o número de análise e notas de imprensa que se referem à América Latina como a região em que, como nunca antes na história, debilitaram formas de governo construídas sobre ideais democráticos. Os casos de sequestro da democracia passam pouco a pouco de anomalias isoladas à regra geral em uma porcentagem alarmante de territórios e, em casos concretos, de países.

Os jovens de zonas marginalizadas continuam sendo na segunda década do século XXI as principais vítimas e os principais algozes. As gangues urbanas continuam sendo mão de obra barata para os traficantes e crescem graças à falta de oportunidades, ao abandono escolar e à necessidade de reconhecimento e pertencimento de muitos jovens que não encontram refúgio em outros lados. Diante desses jovens, prevalecem essencialmente os exemplos da cobiça e do dinheiro fácil, e é entre eles que mais se dispara o tráfico e o consumo de drogas. Multiplica-se a violência de gênero e, sob o arquétipo patriarcal comum de fenômenos como o gangsterismo, diminuem as oportunidades de progresso e de participação social para as mulheres, sobretudo as que vivem em zonas rurais. Tais preconceitos se estendem à população LGBT, que sofre uma repressão habitual nesse magma social de tanta violência. Muitos trabalhadores do campo e povos indígenas são desalojados de suas populações e despojados à força de suas posses. Como resultado de tudo isso, exacerbam-se em alguns casos os índices de desemprego, pobreza, desigualdade e desequilíbrio ambiental.

Contudo, o potencial produtivo da região entre 2015 e 2030 se reduz a uma porcentagem equivalente a muitos milhares de milhões de dólares anuais. Os empresários legítimos devem competir agora em condições de desvantagem e de risco pessoal e familiar com as atividades “branqueadas” dos traficantes que servem para a lavagem de capitais. Suas empresas sucumbem por estar localizadas em regiões pouco atrativas ao investimento, o que diminui paulatinamente a oferta de emprego formal. São as atividades informais que crescem em forma exponencial. Outros empresários com menos escrúpulos se prestam eles mesmos à lavagem de dinheiro por meio de atividades comerciais legítimas, como a construção, as farmácias e os serviços financeiros, entre outras. Entretanto, a legitimidade do poder judicial se enfraqueceu ao máximo devido à coerção, à corrupção, à cooptação e à falta de recursos. O poder judicial deixa assim de ser um dos contrapesos da democracia. O exército e a polícia também não são alheios às atividades criminosas. Muitos uniformizados recebem um pagamento muito superior ao de seu salário para ignorar as transgressões à lei ou proteger os criminosos. Em alguns casos, durante as horas de serviço, servem aos interesses do crime organizado sob a impunidade dada pelo uniforme e sem ele passam a ser membros clandestinos de quadros médios ou inferiores dos exércitos criminosos.

Na sociedade civil, instala-se com muita frequência o silêncio, o temor, a apatia e, às vezes, a dupla moral. Vários optam pelo caminho da migração, especialmente para os Estados Unidos, mas também para outros países do continente. Trata-se tanto de pais quanto de menores sozinhos e sem documentos. Tal aumento da migração rompe a coesão social básica de vínculos paternais, familiares e afetivos que tratam de ser supridos sem sucesso com remessas e viagens periódicas. As remessas geram entradas que permitem sustentar algumas famílias, mas, por sua vez, têm efeitos colaterais perversos por não propiciar majoritariamente atividades produtivas, mas apenas o consumo dentro do território em que são recebidas. Também se contabilizam milhares de pessoas que se refugiam na fé e se asilam em igrejas e cultos religiosos, cujo funcionamento e atividades em alguns casos são financiados pelos próprios traficantes. Os que podem, a minoria, incrementam o gasto em segurança privada e no completo isolamento do resto da população por meio de condomínios privados que se tornam a nova moda entre as elites da região.

Em torno de 2025, e ante a ausência de uma concepção transnacional que permita unir forças em torno à ameaça do crime, as reações à crise generalizada são de distinto calibre segundo cada país. Em alguns casos cresce o número de cidadãos extenuados que exigem mão firme, mesmo se isso implicar a renúncia aos preceitos constitucionais e às políticas de prevenção do delito. Nesses casos chegam ao governo pessoas que, continuando uma tradição que se acreditava superada na região, exercem o poder de forma arbitrária, prometendo soluções populistas de curto alcance e, ao mesmo tempo, vulnerando constantemente os direitos democráticos. Em outros países, a ausência de respostas contundentes por fora do marco constitucional e legal faz com que cada vez mais cidadãos comuns se armem até os dentes e se organizem em patrulhas ou grupos de autodefesa para exercer a justiça com as próprias mãos, ou protagonizem fenômenos de linchamentos, ou justifiquem a adoção de qualquer medida de tipo repressivo e totalitário por parte de autoridades locais.

Em casos concretos, busca-se atacar não apenas as consequências da segurança dentro do marco institucional, mas sim todas as causas, que se relacionam quase sempre com problemas ancestrais de exclusão social. São desenvolvidas campanhas educativas para criar maior resiliência nas comunidades ante a tentação do delito, bem como tréguas com os grupos de delinquentes ou gangues, que alguns denunciam como uma claudicação ante o crime. Além disso, são empreendidos ingentes esforços para melhorar a infraestrutura nos bairros mais vulneráveis e a qualidade dos serviços públicos a cargo do Estado. Também se introduzem atividades culturais e esportivas em espaços públicos recuperados dos criminosos. Entretanto, a margem de manobra desses governos para se enfocar nas necessidades sociais é muito limitada e os cofres públicos diminuíram ao máximo. Torna-se visível uma relação perversa: quão maiores são as necessidades sociais devido à insegurança, menores são as condições econômicas e financeiras que permitem os governos afrontar o problema.

Por outra parte, a meados da década de 2020, duplicam-se os casos de cidadãos que se organizam através de campanhas contra a ameaça criminosa. A indiferença e apatia geral contrastam com o trabalho constante de líderes que se abastecem em minúsculos círculos de resistência pessoal e profissional e fazem frente ao sequestro da institucionalidade mediante seu ativismo e resistência a viver sempre sob a sombra do crime organizado. Lentamente permeia a evidência de que nem os governos nem seus respectivos países podem conseguir resultados por si mesmos.

Apesar do anterior, muitos territórios da maioria dos países da América Latina chegam a 2030 submersos em uma crise de insegurança que parece não chegar a uma situação irreversível e que se antepõe a qualquer outra consideração. Trata-se de crises territoriais que implicam um risco notável para a desestabilização no resto da região. A debilidade das instituições nesses territórios, ao mesmo tempo, causa e consequência da crise, é maior que nunca. A corrupção, o crime organizado e a violência impedem avanços sustentáveis na construção de um sistema que possa salvaguardar as garantias democráticas mais elementares. O que predomina nesses territórios é a tradicional cooptação do poder. Em outros casos, impera a alternativa da mão firme e, em outros, simplesmente a anarquia. Registra-se um adormecimento ou uma doutrinação da consciência coletiva. Parece faltar ainda algum trecho para entender que a segurança é um desafio compartilhado, pois sua resolução, segundo muitos, só pode provir de um compromisso tanto em nível hemisférico quanto nacional. Em nível hemisférico, porque se requer uma ação coordenada ante uma ameaça que não conhece fronteiras quanto em nível nacional. Em nível nacional, porque os estreitos vínculos entre exclusão social e violência demandam uma responsabilidade conjunta para atender prioridades e acordar estratégias sensatas em longo prazo em meio aos limites impostos pelas restrições orçamentárias.

Os especialistas mais reputados na América Latina sugerem com insistência que na luta efetiva contra o crime deve confluir uma mistura integral de múltiplos fatores, como a prevenção, a coerção legítima, a tecnologia de ponta, a maior coordenação institucional, a aproximação da comunidade, o investimento social, a redução da pena, a cooperação internacional, a diminuição da rentabilidade da atividade ilícita, a vontade política e as reformas no aparelho judicial, entre outros. Entretanto, afirmam, não há atalhos: é só através da construção de um sistema democrático inclusivo e transparente que una o Estado à sociedade e à comunidade internacional, que se pode avançar gradualmente na superação do crime e da violência. Alguns casos específicos desde 2025 são pioneiros em criar as condições propícias para essas circunstâncias e por isso são a bússola sob a qual se sugere coordenar a ação reformista dos demais, sem sucumbir ante a tentação totalitária dos golpes de Estado e a mão firme. A luz de esperança aparece por fim no horizonte. Para muitos, a que por décadas foi a região mais insegura do mundo aprendeu por fim a lição ao despontar 2030, mas a um custo extremamente alto.

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